Inchaço nas pernas pode ser lipedema: veja outros sintomas
Como muitas pessoas, a professora Kallyne Kafuri Alves ganhou peso durante o isolamento provocado pela pandemia de covid-19. Mesmo retomando os cuidados com a alimentação e a prática de exercícios, ela notava que o inchaço e a dor nas pernas persistiam. “Era como se eu estivesse vestindo uma calça jeans grossa e molhada”, descreve.
O diagnóstico veio por acaso, durante uma conversa com uma aluna que mencionou ter lipedema — condição crônica que provoca acúmulo anormal de gordura, principalmente nas pernas e braços, além de dor e sensibilidade. Kallyne reconheceu os sintomas e, após buscar orientação médica, confirmou que convivia com a doença há anos. Ela também identificou sinais semelhantes em sua mãe e avó, o que reforçou o caráter hereditário do distúrbio.
De acordo com o cirurgião vascular Vitor Gornati, o lipedema acomete principalmente mulheres e está ligado a fatores hormonais, especialmente ao estrogênio. A condição tem origem genética e costuma se manifestar já na adolescência, embora muitas pacientes não recebam diagnóstico por falta de conhecimento sobre o tema. “É como se a parte inferior do corpo não acompanhasse o emagrecimento do restante. As pacientes perdem gordura no rosto e na cintura, mas pernas e glúteos permanecem volumosos”, explica.
Além do impacto estético e da dor, o lipedema está associado a problemas vasculares. Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos revelou que mulheres com a condição têm 11 vezes mais chances de desenvolver varizes. Também é comum a ocorrência de hematomas, dores articulares e dificuldade de ganho de massa muscular.
O tratamento envolve mudanças no estilo de vida, como dieta equilibrada, atividade física regular e terapias manuais. Em casos mais avançados, a lipoaspiração pode ser indicada para aliviar o desconforto. Kallyne relata melhora significativa após iniciar o tratamento, mas ressalta que a manutenção dos cuidados é essencial. “Se eu saio da dieta ou deixo de me exercitar, minhas pernas incham tanto que meu peso pode aumentar 2 quilos de um dia para o outro”, conta.
A professora agora planeja uma cirurgia plástica para remover o excesso de pele e torce para que a medicina avance em terapias medicamentosas. Para ela, o atraso nas pesquisas sobre o tema reflete preconceitos estruturais. “A falta de interesse no passado tem muito a ver com o machismo e a gordofobia. É uma doença de mulheres, e ainda existe a ideia de que estamos assim por falta de esforço”, afirma.
O médico concorda: “Muitas pacientes chegam chorando ao consultório, aliviadas por saberem que não estão sozinhas e que existe uma explicação médica. O lipedema ainda é invisibilizado justamente por estar relacionado à gordura, algo que carrega muito estigma social”.
